Não foi na quarta feira, foi na quinta
Subir no ônibus e sentar ao lado de alguém, de alguém que nunca vi. Não estou atuando, seria um deserviço ao tipo de percepção que gostaria despertar nesse ou nessa passageiro (a) (em trânsito) Sento e olho pela janela: as ruas, os carros, outros ônibus...o calor se novembro e o horário me fazem pensar que talvez esta não seja uma ação para ser levada à sério. Mas é.
A fingida indiferença do homem careca que se sintiu intimidado por uma menina que falava em cantar e exaltar a beleza da velocidade...mal olhou para a minha cara.
O jovem com fone de ouvido que me ouvia com um simpático receio e que me disse que nunca havia pensado na velocidade do ônibus...
O homem para quem mostrei a pintura decadente que é toda vez que atravessa alguma das pontes do rio Tietê... os prédios-promessa de progresso, o concreto que monopoliza todo o nosso olhar, o nosso senso de cidade..passar pela ponte da cidade jardim com um cicerone que te mostra discretamente e quase sem querer o atributo de beleza escondida que assoma em cada canto desta feia cidade.
Não atuei, quero pensar que fui mais um objeto dessas palavras e que a minha atitude foi a não atitude.
O ônibus é uma promessa de descobertas que mal começamos a explorar. O ônibus é o lugar de encontro entre gente que não quer saber da vida do outro. E a passagem pode virar destino. O trânsito é a vida, o entrelugar é o presenteç o eterno gerundio de quem vive fazendo planos para o futuro e lembrando do que já foi.
Serei objeto em trânsito. E serei objeto de descobertas.
